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quinta-feira, 10 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28337: Humor de caserna (291): Homenagem aos nossos comentadores: aos que já partiram, e aos que ainda resistem...

 






Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Alberto Branquinho (2010)
Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné



1. Era para sair, anteontem,  com o poste P28327 (*). Mas a "gaija" (a menina da IA) sabotou-me o trabalho. Trocou-me os nomes todos, depois de muitas horas a "partir pedra". Deitei a toalha ao chão, chamei-lhe uma data de nomes feios e depois fui fotografar as uvas que vão ser colhidas no próximo sábado, e que irão vão fazer o melhor vinho verde  branco, Nita, DOC,  de 2026.

Retomei hoje o trabalho. Tive de sacrificar alguns nomes que não cabem nesta BD. Ficam para a próxima: Artur Conceição, Fernando Gouveia, José Câmara,  José Casimiro de Carvalho, José Ferreira da Silva, José Marcelino Martins, Vitor Junqueira... Do Carlos Nabeiro não tenh0 foto, e dos anónimos não posso adivinhar quem são (ou eram). Tirando o  Zé Belo, que esse tem "visto Gold"...

Com este poste damos por encerrada esta brincadeira de caserna, até por que o Alberto Branquinho,  o criador da personagem (o tal "básico" que tratava das coisas dos oficiais da companhia, e que trocava os "vês" pelos "bês", sendo uma espécie de "ordenança adhoc"),
 também acha que já tem protagonismo a mais no nosso blogue.

Mas antes de "partirmos para outra" (que o blogue é um carrossel de empções e memórias), convém que fique claro o seguinte: A reprodução fonética da troca do "vê" pelo "bê" ("bocemessê", "inbenções", "labadeira", "cerbeijas", ") e o uso de termos típicos da linguagem popular e do Norte ("gaija", "bossemessê", "prái") não servem aqui para gozar com a iliteracia, ou o sotque nortenho-.  Pelo contrário: conferem uma autenticidade humana e geográfica imediata.

A Guerra Colonial colocou lado a lado no mesmo espaço físico e na mesma ansiedade rapazes de Viana do Castelo, de Ovar, do Porto, de Aveiro, da Nazaré, de Bragança, da Covilhã, de Beja, de Faro, de  Lisboa, das ilhas..., mas também do ultramar (de Cabo Verde a Macau).  

Ao "ler" aquele sotaque, cada comentador "ouviu" instantaneamente na sua cabeça o seu próprio camarada de armas, o ordenança do seu capitão, o ajudante da cozinha que era básico... Não se está, pois, a acincalhar ninguém, nem muito menos reabrir guerras sociolinguísticas entre nortistas e sulistas... Afinal, trocar os "bês" pelos "vês", é natural e foneticamemnte correto, acontece em diversas línguas latinas (e outras) e chama-se... betacismo.

Quanto ao protagonismo, ele é de todos nós, os que todos os dias fazemos pacientemente o blogue, autores, editores, leitores, comentadores, e todos os demais colaboradores permanentes, uns mais ativos do que outros  nesta fase do campeonato, e todos já muito cansados de palmilhar quilómetros e quilómetros,  pela picada da vida fora, e de resto  minada  e armadilhada, desde muito cedo, para a maior parte de nós, que não nascemos em berço de ouro... 

Aos que já partiram e aos que ainda resistem, tiro o meu quico!... É em honra de todos eles, e não apenas dos que aqui estão "representados", que dedico esta BD.
__________________

Nota do editor LG:

(*) Último poste da série > 7 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28327: Humor de caserna (290 ): A propósito da "Assinatura Ilegível", de Alberto Branquinho... Uma paródia aos "básicos" que, afinal, fomos todos nós, e que mereceu 39 comentários no blogue há 16 anos


quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28335: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (18): o Alberto Branquinho, o soldado básico e o trocadilho Milo ® /Milho numa pequena obra-prima de humor de caserna



Milo da Nestlé, Portugal
 (com a devida vénia...)
(E passe a publicidade!)
1. A propósito do poste P28325 (*):

(...) " Eu era o soldado básico que tratava das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia. Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái [leia-se: no blogue, LG]

"Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. (...) 

" Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

"Um  [deles] um dia disse que cando chegasse da operação queria 
um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO." (...) (*)

A fala,"nortenha", do "ordenança" dos oficiais de uma companhia no mato (ou seja, a do Alberto Branquinho ou de um seu "alter ego", da CART 1689 / BART 1913, 1967/69; a mesma subunidade do José Ferreira da Silva, mas esse não devia ter "ordenança", proque era furriel de operações especiais , é um "tratado" de humor de caserna. 

Esse trocadilho "Milho / Milo", como recurso literário, é de antologia, para não dizer mesmo... "genial". Nunca me ocorreria, a mim, porque há séculos que não lia ou não via uma referência a esta bebida. Nem eu gosto sequer deste tipo de bebidas.

Milo ® era (e ainda é) uma marca de leite achocolatado que, no nosso tempo,  fazia as delícias da pequenada ao pequeno-almoço. Falamos, naturalmente, daqueles que se podiam dar ao luxo de tomar um saudável pequeno-almoço, com direito a leite e derivados do leite. 

O Milo ® é uma marca registada da Nestlé, o gigante da indústria de alimentos e bebidas,  de origem suíça. Lançado em 1934, na Austrália,  o 
Milo ® surgiu em Portugal no final dos anos 50, saiu do mercado  no início dos anos 90, e foi de novo relançado, em 2013, segundo leio na página da empresa.

(...) Após vinte anos de ausência e muitas centenas de pedidos de consumidores, Milo ® está de volta! Em Portugal, Milo ® saiu de comercialização no início dos anos 90, deixando uma geração de consumidores saudosos por voltar a provar o característico sabor de Milo®. Milo ® tem um sabor único e alto valor nutricional, graças à sua composição de malte, cacau e leite. É igualmente fonte de Cálcio e Fósforo e Vitaminas C e do complexo B, sendo assim a bebida ideal para fornecer energia logo ao acordar e preparar os jovens atletas para a prática de uma atividade física mais intensa. (...)

Quando chegou à mesa dos portugueses ainda não era para todos. Estamos a falar dos anos 50/60/70 do século passado: beber "Milo" (ou outros produtos da Nestlé) ainda era um pequeno luxo...

Essa pequena confusão entre o (i) "milho" (o cereal com que se fazia, no Norte,  o pão de milho, misturado com o centeio;  mas também com que se faziam as "papas de milho", muitas vezes sob a forma de"carolo", produto obtido pela moagem grossa ou incompleta do grão de milho, e que era, com as batatas e as couves, a  comida de sustento do meio rural de onde vinha o soldado básico);  e (ii) o "Milo" (o produto sofisticado da Nestlé,  que ia à mesa urbana do oficial do exército português, miliciano ou do quadro permanente) condensa, numa pequena palavra, as profundas diferenças da época, no plano económico, social e cultural.

(i) Uma "radiografia social" do Portugal dos anos 60 numa lata, de rótulo verde

O "Milo" nos anos 60/70 do século passado não era, de facto,  para todos. Era  símbolo de uma certa  modernidade e de um certo estatuto social, associado à emergente classe média /média-alta,  urbana,  que já podia dar aos filhos um produto industrializado da Nestlé ao pequeno-almoço. Mesmo assim, com peso, conta e medida.

Quando o oficial  (miliciano, um jovem com frequência universitário ou com o liceu concluído ou equivalente,   de origem em geral citadina) ordena ao seu "ordenança" que lhe sirva um copo de   "Milo", ao chegar do mato,   está a projetar no duro cenário da Guiné um hábito de conforto da sua vida civil. 

Para o soldado básico (geralmente de origem rural,  analfabeto ou com a instrução primária incompleta), a palavra "Milo" pura e  simplesmente não existia  no seu limitado léxico rural ou suburbano.  Não era coisa que chegasse à "venda" na aldeia ou da vilória do interior, que também funcionava como tasca... A única coisa que foneticamente fazia sentido na sua cabeça era o milho, o milho do pão, com mistura de centeio,   cozido no forno a lenha ou as papas de farinha de milho, feitas com água e um niquinho de azeite.

Estamos a imaginar a cena do pobre soldado  a andar,  no quartel, feito doido, à procura de farinha de milho  e depois pô-la  "molinha" (sic) dentro do copo de leite quente... quando afinal o  oficial  o que queria era um  copo de "leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada Milo" (!)...


(ii) Os pequenos luxos da manutenção militar

Nos quartéis do mato,  nas cantinas militares, nas messes de oficiais e sargentos, as latas de  Milo ® não eram sequer um artigo corrente... Eu não me lembro dessas latas com rótulo verde. Quando muito havia leite esterilizado, leite condensado, leite achocolatado de marca branca, em lata ou em garrafa de vidro... Não creio que a Manutenção Militar disponibilizasse, no ultramar, latas de Milo ®.

Mas poderiam eventualmente ser mandadas pelas famílias, pelo SPM, a par dos chouriços, salpicões, postas de bacalhau, etc., pequenas "guloseimas" que ajudavam a criar uma ligação afetiva à metrópole, e a matar saudades de casa e que funcionavam como  um verdadeiro "miminho", para a alma e para o estômago dos "expedicionários".

O mal-entendido ("Milo / milho") mostra bem como o stresse do quotidiano no mato  se podia manifestar no "upstairs" e no "downstairs" de um quartel: (i) o oficial,  saudoso do seu conforto de casa para espairecer a cabeça e aconchegar o estômago, depois de uma operação no mato;  e (ii) o "ordenança",  empenhado em fazer as vontadinhas ou caprichos  do "seu" oficial, mas completamente perdido na tradução de dois mundos  sociolinguísticos que a tropa e a guerra tinha juntado à força...na "colónia de desterro" da Guiné.


(iii) Mitologia & publicidade

O nome da leite achocolatado da Nestlé, da marca  Milo ®,  deriva,  ao que parece, do lendário Milo de Crotona (séc. VI a. C.), o mais célebre atleta da antiguidade clássica, famoso pela sua força sobre-humana (e que teve um fim trágico). 

A ironia histórica da origem do nome do produto  contrapõe-se deliciosamente à soçlidão e à fragilidade, psicológica,  dos oficiais do exército português na guerra de África / guerra colonial, que não podiam dispensar o seu bom uísque, a sua água de Perrier, o seu gin tónico, à tarde e à noite,  ou o seu energético Milo ® pela manhã.

O "pó" tónico e vitamínico  que devia dar a "força de Milo" ao oficial acabava apenas por gerar uma birra de caserna por causa de uma tigela de papas de milho (ou de "carolo") com leite!

É por coisas como esta que o texto do Alberto Branquinho é tão divertido (e tão rico, literariamente falando): sob o aparente  humor fácil da paródia ao sotaque nortenho do soldado básico que trocava os "vês" pelos "bês", há também uma subtil atenção à história social, ao consumo da época e à linguajar dos homens que combateram no TO da Guiné. E nisso o Branquinho é mestre, sem ser panfletário. (**)

________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 6 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (268): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)

(**) Último poste da série > 25 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28289: Nomadizações de um marginal-secante (Luís Graça) (17): O Portugal sacroprofano: 24 de agosto, dia de São Bartolomeu, em que o diabo anda à solta, e é por isso um bom dia para o "banho santo" que há de livrar as crianças do medo... (do Adamastor, da guerra, da morte!)

domingo, 6 de setembro de 2026

Guiné 61/74 - P28325: Humor de caserna (289): Afinal, tão básicos que nós éramos... (Alberto Branquinho)



Prompt original e composição editorial: Luís Graça.
Texto: Alberto Branquinho  (2010)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


O escritor Alberto Branquinho


1.  Não haverá muitos postes no nosso blogue (já com mais de 22 anos de existência, na Net, quase uma eternidade!) com cerca de 4 dezenas de comentários e tantos comentadores...

Foi há 16 anos, alguns dos comentadores já não estão cá entre nós (Carlos Cordeiro, Jorge Cabral, Torcato Mendonça, José Manuel Dinis)...

Talvez valha a pena a gente tentar obter uma explicação para esta quantidade, diversidade e até riqueza de comentários a um texto de humor de caserna, publicado pelo Alberto Branquinho, na sua série "Contraponto" (*)...

O título nem sequer era apelativo ou chamativo, "Assinatura ilegível"... Mas o texto do nosso camarada Alberto Branquinho (ex-alf mil op esp, CART 1689, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69) tinha uma coisa que talvez explique tudo: era uma pequena bomba-relógio humorística.

Começava por parecer uma simples caricatura de um “soldado básico” que trocava os "bês" pelos "vês" (pronúncia típica do Norte, ou melhor, do Porto / Região do Porto).  

Este texto (humorístico), de um soldado básico, na guerra da Guiné (c. 1967/69), era delirante e acabava por abrir uma dúzia de portas e janelas: os básicos, os oficiais (do QP e milicianos), as lavadeiras, as cuecas, os sotaques, os nortenhos, os sulistas, as memórias da Guiné, a linguagem popular, o humor de caserna, a própria identidade dos comentadores (alguns dis quais se escudaram no anonimato)...

E há uma coisa extraordinariamente reveladora nos comentários: a história não ficou encerrada no texto do Branquinho. Cada comentador pegou numa ponta e puxou por ela.

Achamos que o mais interessante neste poste é a qualidade, a diversidade e, sobretudo, a progressiva transformação do próprio poste num acontecimento coletivo.

Vamos republicar o poste P7144 (*) e repescar, em prõximo poste, o essencial dos comentários, alguns dos quais não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).

Vamos republicar o poste P7144 e repescar, em prõximo poste,  o essencial dos comentários, alguns dos quais  não assinados (mas cuja identidade foi reconhecida e recuperada).


2. Mensagem de Alberto Branquinho (ex-Alf Mil de Op Esp da CART 1689, 1968/70),  

Data - 17 de outubro de 2010
Assunto - Contraponto

Caro Carlos Vinhal

Estou a reenviar um texto que te é dirigido e que caiu na minha caixa de correio... Pensei várias vezes se deveria enviá-lo para o blogue ou não.

Sinceramente, se entenderes que pode vir a ferir alguém devido ao tipo de escrita e à ortografia (apesar do 'post-.scriotum' que vai no final), não publiques.

Um abraço
Alberto Branquinho


 3. Sobre o autor:

Para os leitores "mais novos no blogue:  o Alberto Branquinho (n. 1944, Vila Foz Coa), advogado a viver em Lisboa desde 1970, foi alf mil, CART 1689 / BART 1913, Fá, Catió, Cabedu, Gandembel e Canquelifá, 1967/69).  Foi jurista na TAP, está reformado.

"Por Portugal, um por todos, todos por um", era a divisa do seu batalhão. Chegaram a Bissau a 1 de maio de 1967 e regressaram a casa em 2 de março de 1969. Portanto, ainda "trabalharam" com o Spínola nove meses... Tem 170 referências no nosso blogue, é autor das notáveis séries "Contraponto" e "Não venho falar de mim... nem do meu umbigo".  

Escritor, especialista no contom (e microcconto), tem uma dúzia de títulos publicados.


Contraponto (16) > Assinatura ilegível

por Alberto Branquinho

Senhor Carlos Binhal

Eu era o soldado básico que trataba das cóisas dos ufissiais da nossa Cumpanhia.

Bossemessê num creia em tudo o qum ufissial da nossa Cumpanhia escrébe prái. Ele num é de cunfiar de todo. Não era má pessua mas aí faz muntas inbenções. Olhe que rasgaba o musquiteiro de raiba à noute e despois dezia quera eu.  Andaba sempre a précurar pelas cuecas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas que faltabam as cuécas. Inté tinha alguma razão porqueu um dia puchei o pano pra baicho à labadeira e a gaija tinha umas cuécas dele bestidas.

Embora tibesse alguma razõm às bêses ele num é de cunfiar de todo. Sou eu que o está a abisar. Sabe lá cuantas beses eu tibe capanhar os cacos das cerbeijas quêle partia contrá parede do quarto. Dábamle aquelas ráibas e despois dezia que lhe faltabam os cumpremidos pra durmir que lhe roubavam os compremidos pra durmir. Cal comprimidos pra durmir aquilo era prá doudice. Gastábaos êle e num fazia contas a eles.

Mas olhe cus outros ufissiais tamém não eram milhores. Eram cuase todos das ilhas. Esses nunca os bi aí do seu computador.

Um um dia disse que cando chegasse da operação queria um copo de leite cum milho. Sabe lá bossemessê o queu passei prá arranjar o milho no quartel e quêle ficasse molinho pra pôr dentro do leite. Despois chateou-se comigo cu quêle queria era o leite com um pó castanho que tinha dentro duma lata chamada MILO.(**)

Outro tinha à cabeceira futugrafias da namurada ou da mulher ou lá o que era e cando eu entraba era de arrecuas porquêle se chateaba se eu olhasse prás futugrafias.

O outro deles às bêses berrava comigo e quando eu lhe précuraba alguma coisa ou falaba cum ele nem oubia passaba o tempo a olhar pró chão ápertar o cinto dos calções a dezapertar o cinto dos calções e só dezia carássas carássas carássas.

Talbez estibessem apanhados du clima mas eu é que num tinha culpa nenhuma disso. O que me balia era o nosso capitão quéra munto bôa pessôa.

Nunca fui pró mato mas sabe deus o queu passei por causa deles.

Com muntos comprimentos pra bossemessê e para toda a sua família mas num creia em tudo o que esse ufissial escrebe prài porque é quase tudo inbenções.

Assinasse este que num manda as futugrafias que bossemessê pede sempre queu num quero quê-les saibam.

(assinatura ilegível)


***************

Alberto Branquinho

PS – Não se entenda o texto acima como sendo de menos consideração pelo soldado “imaginado” ou pela “sua” escrita. É só um ensaio para fazer um retrato.

(Seleção, revisão / fixação de texto, itálicos, negritos, título: CV/LG) (***)

 ______________________

Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 18 de outubro de 2010 > Guiné 63/74 - P7144: Contraponto (Alberto Branquinho) (16): Assinatura ilegível


(**) Vd. página do Facebook > Portugal Antigo, de Isabel Antunes Mourinho > 6 de janeiro de 2024 ·

(...) Milo, leite achocolatado, que fazia as delícias dos nossos pequenos-almoços, antes da corrida para a escola primária. Claro que nem todos, pois, apesar de tudo, nos anos 70 tomar Milo era um luxo, ao alcance de poucas famílias.
 
Milo é um produto da conhecida marca Nestlé, mas teve origem na Austrália (onde ainda se fabrica e é extremamente popular), desenvolvido por Thomas Mayne, em 1934. O nome deriva do lendário Milo de Creta. (...) 

quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28242: Notas de leitura (1947): "Parábola do livro esquecido", retirada, com a devida vénia, do livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho; Partenon, 2026

"Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)", por Alberto Branquinho. Lisboa: Edições Partenon / Chancela Sítio do Livro, Maio de 2026, 160 pp. (ISBN: 978-989-9198-51-7) (Está à venda em: www.sitiodolivro.pt) (Preço de capa; 12,00 euros)

Sinopse:

"Este livro é um esboço de memórias e, simultaneamente, um inventário-amostra dos livros publicados pelo autor. É, além disso, uma biografia breve de um “baby-boomer” nascido em Portugal, que atravessa grande parte do Salazarismo e do Marcelismo, envolvido, também, na guerra colonial de 1961-1974."


******************************

1. Com a devida vénia ao nosso amigo e camarada Alberto Branquinho, transcrevemos a "Parábola do Livro Esquecido", que se pode ler nas págs. 87 e 88 do seu livro "Inventarium Vitae (Escritos, Memórias e Olvidos)".

Alberto Branquinho, ex-Alf Mil Op Especiais da CART 1689 / BART 1913


Parábola do Livro Esquecido

Quando o livro sentiu estar a ser arrumado na estante (foi há tanto tempo!) havia, ainda, bastante espaço entre ele e os que estavam instalados já instalados à sua esquerda e à sua direita. De maneira discreta podia criar espaço entre as suas folhas. Exercitar-se. Mas, com o decorrer do tempo, esse espaço foi encurtando, de tal modo que quase não conseguia respirar. Quase chegou a odiar os vizinhos à sua esquerda e à sua direita. Além disso, não falavam a mesma língua. Não havia comunicação entre eles. A comunicação própria dos livros. Não se entendiam. Os vizinhos deviam sentir o mesmo que ele sentia. Com a sensibilidade própria dos livros.

E assim esteve durante muitos, muitos anos. Nos primeiros tempos desesperou. Depois conformou-se à sua sorte.

Mas... muito recentemente mão amiga retirou-o (com dificuldade) da estante, consultou o índice e colocou-o em cima de uma mesa. Na horizontal. Agora, repetidas vezes, é folheado e elevado à altura de uns óculos que reflectem sobre ele a luz do candeeiro. Sente-se útil. Aquele que o lê deixa, por vezes, um marcador de cartolina entre duas folhas.

O livro está agora feliz com a sua existência. É útil, lido, consultado, talvez citado. Saiu, ao que parece, do anonimato. Ou, se não saiu já, sente que, em breve, será citado, transcritas partes do seu texto.

Assim vale a pena nascer e continuar a ser livro.

_____________

Nota do editor

Último post da série de 3 de agosto de 2026 > Guiné 61/74 - P28237: Notas de leitura (1946): "Depois da Guerra", de Luís Rosa; edição de autor, 1990 (2) (Mário Beja Santos)

sábado, 1 de agosto de 2026

Guiné 61/74 - P28232: Verso & reverso (1): Levantamentos de rancho, cozinheiros, vagomestres, jagudis, porradas, contos... sem má-fé, "bonecos" da IA ... (Alberto Branquinho / Carlos Pinheiro / Eduardo Estrela / José Manuel Cancela / Luís Graça / Virgílio Teixeira)


Desde 1955 que era proibido caçar (e comer carniça de) jagudis...na Guiné Portuguesa. (Decreto, nº 40040, de 20 de janeiro de 1955, do Minitério do Ultramar(

Foto: arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guine


1. Felizmente que há o verso & o reverso das coisas e das palavras. Se assim não fora, nunca haveria o "outro lado da lua" nem nunca o homem chegaria um dia à lua (se é que lá chegou, apesar das notícias dos jornais, dizem os céticos).

(i) Tabanca Grande Luís Graça (*)

Nem um comentário, Alberto... Se eu tivesse aranjado outro título (por exemplo, "Hoje há jarroz de agudi no forno"), talvez a malta tivesse curiosidade em ler e comentar o teu conto...

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 11:48:00 WEST 

(ii) Alberto Branquinho (*):


Pois é, Luís, há que ter cuidado com a embalagem e com o aspecto do embrulho do produto (ou serviço) que se queira "vender".

Além disso, tenho um primo que me diz:  "Não me mandes mais livros. Não tenho paciência para ler; demoro três dias para ler a 'Bola' e... não leio tudo".

E quem pouco lê... muito menos escreve.

Título que eu colocaria: "Levantamento de rancho: furriel vaguemestre leva uma porrada e passa a operacional no mato".

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 15:55:00 WEST 

(iii) Eduardo Estrela (*)

Eu li o conto e,  se não o comentei,  foi porque gozei que nem um nababo com o seu conteúdo. A certa altura da leitura lembrei-me: querem ver que o sacana do do vagomestre mandou cozinhar jagudis!?

O homem devia era ser louvado! Praticou o princípio da lei do Lavoisier. Não fossem os cozinheiros e todos ficavam satisfeitos. "O que olhos não veem coração não sente", neste caso o estômago.

quinta-feira, 30 de julho de 2026 às 16:29:00 WEST 

(iv) Alberto Branquinho (*):

Quando, pela primeira vez, li o título que lhe deste, o meu entendimento foi: "Arroz com má-fé"...

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 09:57:00 WEST 

(v) Virgílio Teixeira (**)

Enfim, uma história com cenários que nada têm a ver com os nossos soldados, aquartelamentos, fardas, cantinas e refeitórios, terrenos e tudo...etc.

Já vi outros anteriores e a minha opinião é a mesma, o IA veio estragar tudo.

O autor pode até ter boas ideias, mas francamente, e tenho de ser fiel a mim prõprio, eu não acho piada nenhuma a estas bandas desenhadas, prefiro as de antigamente, dos índios e cowboys, desenhadas por pessoas reais, e não por Extra Terrestres, esta coisa, aqui, cheira a outros cenários, e por mim dou o recado completo, sem complexos.

Acho uma pura perda de tempo com um resultado francamente mau, o conteúdo é lastimável.

Tanta outra coisa para publicar e agora é tudo igual, não gosto definitivamente, mesmo que todos os leitores até possam achar alguma ponta de piada.

Nada tem a ver com as personagens que se querem aqui representar, mas o conteúdo é francamente indescritível.

Desculpem a minha franqueza!

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 21:40:00 WEST 


(vi) José Manuel Cancela (**):

Completamente de acordo... E essa de comer aquelas aves nojentas, não cabe na cabeça de ninguém...

sexta-feira, 31 de julho de 2026 às 23:26:00 WEST 

(vii) Carlos Pinheiro (**):

Pensava que já tinha visto tudo, mas afinal enganei-me. A IA veio complicar isto tudo, quando se pensava que era para facilitar

sábado, 1 de agosto de 2026 às 11:50:00 WEST

(viii) Alberto Branquinho (**):
 
Meus senhores (e ex-camaradas de armas): uma coisa são os factos (ou seja, os acontecimentos vividos, embora "pintados" com cores mais vivas ou mais esbatidas) outra coisa são desenhos (com a ajuda da IA ou não) que possam ou não corresponder ao ambiente militar criado "à portuguesa" naquelas terras, em ambientes tropicais, em zonas de guerrilha/contra-guerrilha.

Portanto, não misturemos a apreciação de um escrito sobre factos ou acontecimentos com a sua representação gráfica segundo um qualquer meio ou estilo (gráfico e/ou informático ou outro), que, eventualmente, não retrate os ambientes tal qual aqueles em que vivíamos no chamado "mato" (que não era, propriamente "mato", mas quartéis no interior).

sábado, 1 de agosto de 2026 às 11:14:27 WEST

(ix) Tabanca Grande Luís Graça (**):

Pois é estamos, aqui a discutir duas coisas distintas ( e, portanto, não devemos confundi-las):

(a) um conto ou microconto, da autoria de um camarada nosso, o Alberto Branquinho, que é um "senhor escritor" , com obra publicada e generosa participação no blogue;

e (b) a ilustração gráfica desse conto , da responsabilidade do editor LG (com recurso,  confesso e declarado, à IA).

Em relação ao conto, já aqui publicado em poste anterior (**), e que passou "despercebido", só vamos relembrar o seguinte: não se sabe nem onde nem quando se passa esta "cena de humor de caserna" (em princípio na Guiné, c. 1967/69) , e que para alguns ou muitos de nós seria "inverosímil"... (Perguntarão, indignados, alguns dos nossos leitores mais sensíveis: quem seria o filho da p*ta do vagomestre que teria a "ideia criminosa" de servir gato por lebre, ou pior, jagudi por frango, aos seus camaradas de armas?!)

Aqui convém lembrar que a imaginação supera a realidade e essa é a magia da literatura... E que o humor é sempre caricatura do real..«

Quanto á BD propriamente dita (ou melhor, aos "bonecos", para não ofender os verdadeiros artistas da BD), podem dar "porrada" á vontade: é um produto tosco, artesanal, feito com boa vontade, "pro bono", espírito de reinação...e recursos técnicos limitados... 

E que, no fundo, "parodia" a IA, que é "americana", sabe pouco ou nada de geografia e de história, a começar por Portugal e a Guiné-Bissau... E nomeadamente sobre a guerra do ultarmar / guerra colonial na Guiné (1961/74)... O que sabe, também vai aprendendo connosco..., como ela própria reconhece, o que muito nos honra.

sábado, 1 de agosto de 2026 às 13:10:00 WEST 
 
(Seleção, revisão/ fixação de texto: LG)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

(**) Vd. poste de 31 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28231: Humor de caserna (286): Os frangos do vagomestre: uma BD inspirada num microconto do Alberto Branquinho (2013)


Os Frangos do Vagomestre

Uma BD inspirada num microconto
 do Alberto Branquinho (2013)



... Que o essencial dos reabastectmentos vinha de barco ou em coluna logística, uma ou duas vezes por mês, conforme a estação do ano ou as necessidades!









... Oh!, homem, come e cala, que amanhã podes perder o  apetite!







... E quem disse que não havia já "chefs" de cozinha,  arrojados, criativos, precursores da comida gourmet, capazes de apresentar pratos  exóticos, fazendo das tripas coração e valendo-se dos recursos locais (como o lagarto, o jagudi, o macaco-cão, a píton africana / irã-cego,  ou  o leitão do balanta passado a ferro pelo Unimog, etc.) para fazer um arroz especial... com mafé ?!


... Vida dura, a do mato !...

Prompt original e composição editorial: Luís Graça.

Texto : Adapt. de Alberto Branquinho  (2013)

Imagens: Arquivo do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné

Geração gráfica assistida por IA: ChatGPT/OpenAI.


1. Eu achei o conto "magistral" (*)... Mas, confesso, esperava mais comentários ao poste... O desmérito é do editor, não do autor... De facto, em vez de "Arroz especial... com mafé" (e não má-fé!) , eu devia ter optado por um título mais provocatório... "Hoje há arroz de jagudi  no forno" ou outro título de fazer crescer a água da boca dos camaradas de Baião e do Marco de Canaveses onde se faz o melhor "arroz de anho no forno" ... Em Portugal & arredores.

Recorde-se, para quem leu, que a história começa com um princípio (ou um ameaço) de "levantamento de rancho"... 

Isto passa-se na Guiné, durante a guerra colonial, por volta de 1968, ao tempo em que o valente  Alberto Branquinho andava lá  com os seus bravos da companhia de caçadores  (de "turras", presume-se, não era de leões nem de elefantes). 

Uma solução à "chico esperto", expedita, do vagomestre e do cozinheiro, para contornar a falta de víveres (e nomeadamente de carne...) e assim enganar toda a gente, a começar pelo capitão, foi recorrer aos pobres dos "abutres-de-capuz" (vulgo, "jagudis") que rondavam o quartel e se alimentavam nas nossas lixeiras... 

Ora, toda a gente sabia que o repugnante e feio jagudi era um "animal sagrado".. E desde 1955, que era proibida a sua caça... Eram os "almeidas" da Guiné, comiam os bichos mortos, limpavam as carcaças e, quando havia festa nas tabancas (nomeadamente, o "tchoro", por morte de alguém importante), abatiam-se vacas, não faltavam vísceras para os "almeidas" se banquetearem...

Não tenho que lisonjear o autor, como faz a menina da IA que é para a gente ficar "agarrados a ela"... De facto, a IA é uma nova adição (=comportamento aditivo, vício, dependência), a par do sexo, da pornografia, da droga, da comida, dos ansiolíticos,  do trabalho, do ginásio, do jogo ("gaming"), do telemóvel, das redes sociais (como o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné), das viagens da Abreu Lopes,  etc..  

O Alberto Branquinho já tem os seus créditos firmados. É uma grande microcontista, a par do "alfero Cabral", de saudosa memória, e de mais uns  talentos literários que se sentam à sombra do nosso poilão (e que não vamos listar para não criar suscetibilidades). 

A ideia do autor  é excelente e a execução resulta. Tem um daqueles ingredientes que fazem com que as histórias de caserna não morram, como as anedotas, que logo se esquem, na hora seguinte: é plausível, é absurda e, no fim, toda a gente diz "isto podia perfeitamente ter acontecido na Guiné do meu tempo".

Porque é que o texto  não  suscitou  comentários imediatos ? Esta é a questão que me intriga... Se o conto é "magistral", porque é que não houve... comentários, e muito menos "magistrais" ?

Reconheço que o título não provoca "pica", não  tem "sex...apelo" (do inglês, "sexappeal"). "Arroz especial... com mafé" é um daqueles títulos prosaicos, sensaborões, chatos... E depois o leitor, desprevenido, confunde "mafé" com "má-fé"... Ora, quem vai "comer" um "arroz especial... má-fé", desconfiando, de pé-atrás ?!

De facto, com um tal título (da responsabilidade do editor...) o conto do Alberto Branquinho só pode despertar curiosidade  em quem sabe o que é o "mafé" e se interessa pela culinária da Guiné-Bissau. 

Para muitos leitores, o poste terá sido visto apenas como mais uma história gastronómica da Guiné-Bissau,  mais um poste da série do "Comes & bebes: no céu não disto: sugestões dos 'vagomestres' da Tabanca Grande", com que tapamos às vezes alguns buracos, sobretudo nas férias de verão em que o pessoal vai a águas e tem menos tempo para coloborar no blogue...

O verdadeiro motor narrativo está lá, entretanto,  escondido já na última parte do conto: "...afinal os frangos do vagomestre eram... jagudis."

É aí que o conto explode. O leitor percorre duas ou três páginas sem imaginar o desfecho. É uma boa surpresa literária. Mas o título, de facto,  não convida ninguém a entrar. 

Vamos experimentar agora com outro: "Os frangos do vagomestre"... mas em em banda desenhada.(**)

O autor merece uma boa BD. Esta "estória cabraliana" (neste caso,"branquiana" ?!...) merece uma boa BD. Os nossos leitores também o merecem. 

Digam-nos depois da vossa justiça. Leiam e comentam. À vontade. E também podem rir, se for caso disso. E se vos apetecer rir. Claro, também podem dizer que não tem graça nenhuma (a BD, não o conto)...

No final, não deixamos de fazer uma ressalva: não temos nenhum "parti-pris", sentimento ou ressentimento contra os nossos vagomestres e cozinheiros que nos mataram a fome durante os dois anos de Guiné. Este conto é também uma homenagem a eles. (Ao pessoal da Intendência, fica reservada a vez para outra altura.) (**)
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Notas do editor LG:

(*) 28 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)

terça-feira, 28 de julho de 2026

Guiné 61/74 - P28220: Humor de caserna (283): "Arroz especial ... com mafé" (um conto magistral de Alberto Branquinho, "Cambança Final", 2013, pp. 85-89)


    Hoje há "Arroz especial... com mafé", anunciou o vagomestre


1. Não há ninguém como o Beja Santos para, de uma penada só , abrir um livro na página "x" e apresentá-lo ao leitor numa bandeja apetecível, como se tratasse do melhor manjar do mundo.  

Leitor voraz, compulsivo, desde criança, já deve ter lido centenas e centenas de milhares de páginas na sua vida. Não conheço ninguém como ele: bibliófilo e bibliófago... Metaforicamente falando, ele adora e devora livros... Confesso, nunca o vi beber (nem comer),  o que era raro entre a milicianagem de Bambadinca...

Tome-se como exemplo este excerto da sua nota de leitura  do livro de contos do Alberto Branquinho, ("Cambança Final", 2013), poste P12248 (*). 

Num livro de 222 páginas (na prática 160, com as folhas em branco) com cerca de  6 dezenas de contos ou microcontos (2 páginas e meia, em média, cada um), ele é um autêntico "garimpeiro", capaz de descobrir, com o seu olho clínico de lince, uma preciosidade, uma pérola, uma gema, uma obra-prima:

(...) "O confrade Alberto Branquinho reservou-me uma das mais agradáveis surpresas da primeira metade de 2013: 'Cambança Final', Edição Vírgula, deste ano, é mais do que um livro da maturidade da escrita, revela uma grande mestria na linha do conto e no saber dedilhar as teclas dos sentimentos humanos no contexto de uma guerra.

E aquela guerra foi a nossa, estamos todos lá, do atirador ao condutor, do cripto ao enfermeiro. (...)

Nada de pieguices quando há explosões onde os corpos se desfazem, até porque a natureza se encarrega de limpar a destruição, como escreve magistralmente no conto 'Despojos':

'Ia recomeçar a andar e olhou para o chão. Viu, junto ao tronco de uma árvore, três ou quatro formigas grandes, pretas que, com as pinças da cabeça cravadas, tentavam arrastar um pedaço de carne, ainda com um farrapo de farda camuflada agarrado.' (...)

Mata virgem e lama, água e o céu estrelado, chuvas diluvianas, frases em crioulo e a propósito, a linguagem de caserna na justa conta, o caminhar noturno, a solidão mesmo quando temos muita gente à volta. E uma enorme capacidade de trazer a pilhéria e o tom zombeteiro que obriga a uma boa gargalhada. (...).

Não é para todos esta capacidade de relevar o pícaro quando se marcha a arrastar o corpo, no auge do sofrimento. É um dom saber descrever um acontecimento corrente para um soldado branco que assusta o africano, tomando-o por feitiçaria, anda por ali o abismo cultural. 

Porque Alberto Branquinho, como na montanha russa, traça uma atmosfera de pânico, põe ali todos os traços da brutalidade e finaliza com um toque de facécia. 

O plausível diverte e comove. O furriel Melo vai tomar banho, avista uma cobra, foge espavorido a tapar as pudendas, não para de gritar e alguém comenta: 'Acho que a gaja deu uma dentada na picha do furriel cripto'.

O conto 'Arroz Especial'  é a profundidade do insólito, com nojo toda aquela gente vai descobrir que andou a comer (...) o impensável .

 O vagomestre e o cozinheiro têm uma enorme densidade que atravessa estes contos, são mal vistos, são detestados e, no entanto, são convocados para o prodígio de alimentar na mais extrema das monotonias, mesmo quando a cozinha é periodicamente escavacada e o brio profissional sobrepõe-se à virtude militar (...)".

Este conto, por ser de  antologia, merece ser partilhado e chegar a um público mais vasto, até por que a edição é já de 2013, e depois disso o autor já publicou mais outros oito livros, sendo o último uma espécie de autoantologia, "Inventarium Vitae" (**),  onde recupera alguns dos melhores contos do "Cambança Final", mas não este, o "Arroz Especial"...  

Alterámos ligeiramente o título, para efeitos de publicação nesta série ("Humor de Caserna") (***) e neste poste:

Arroz especial... com mafé

por Alberto Branquinho


Fonte: Excertos de Alberto Branquinho, "Cambança Final (Lisboa: Vírgula, 2013, pp.  85-89) (Com a devida vénia)
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Notas do editor LG:

(*) Vd. poste de 4 de novembro de 20130 > Guiné 63/74 - P12248: Notas de leitura (531): "Cambança Final", contos de Alberto Branquinho (Mário Beja Santos)

(**) Vd. poste de 21 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28203: Notas de leitura (1942): Alberto Branquinho, "Inventarium Vitae" (Lisboa, Sítio do Livro, 2026, 160 pp.) - Parte I: enquanto houver língua e dedo, não haverá leitor que nos meta medo...(Luís Graça)

(***) Último poste da série > 23 de julho de 2026 > Guiné 61/74 - P28206: Humor de caserna (282): Todos com eles no sítio, todos aptos para o serviço militar (Jorge Cabral, 1943-2021)